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19 de Setembro de 2016

MT tem potencial para energia limpa

Líder na produção de grãos e na pecuária, Mato Grosso dispõe de abundante quantidade de resíduos provenientes dessas atividades. A decomposição de restos vegetais e de dejetos produz gás, ainda pouco aproveitado mas, aos poucos, torna-se um aliado na produção sustentável e no barateamento dos custos.

A ‘alquimia’ de transformar esses materiais descartados em combustível e energia beneficia propriedades rurais, agroindústrias e o setor automotivo. Aquecem caldeiras, movimentam motores e turbinas e garantem ganho de competitividade. O biogás, por exemplo, resultante da decomposição de matéria orgânica, complementa o gás natural como fonte de energia.

Mais caro em Mato Grosso que em outros estados brasileiros, o Gás Natural Veicular (GNV) - cotado na média de R$ 2,69 o metro cúbico em Cuiabá, único local do Estado onde o combustível é comercializado - pode ser complementado pelo uso do GNV Verde e potencial substituto do óleo diesel. 

O argumento é do presidente e CEO da Datagro, Plínio Nastari. Segundo ele, o consumo relativamente pequeno em Mato Grosso torna oneroso transportar e distribuir o GNV em pequena escala. Nos últimos anos, o número de consumidores se mantém, mas a quantidade de postos que comercializam o combustível reduz continuamente. Hoje apenas 3 postos em Cuiabá garantem o insumo, 50% a menos que o total de estabelecimentos que garantiam o produto há 5 anos. 

‘A atividade agrícola gera muito resíduo orgânico. Mato Grosso tem a oportunidade de transformar parte desse resíduo em gás, purificar esse gás e transformá-lo em biometano para substituir o GNV ou o diesel nos postos. E aí vamos ter tratadores, colheitadeiras e caminhões movidos a biometano. Isso é possível e tem um grande valor para o mercado, além de ser uma grande oportunidade para os produtores’, avalia. 

Em Mato Grosso, a distribuição do GNV aos postos é feita pela GNC Brasil, que adquire o produto importado da Bolívia pelo governo do Estado por meio da MT Gás. O custo para disponibilizar o combustível ao varejo, formado por poucos consumidores, é alto, confirma o engenheiro responsável pela GNC Brasil, Francisco Jammal de Souza. ‘O produto é o mesmo. O metano provém da decomposição da matéria orgânica, que, no caso do gás natural, está armazenado no subsolo’, explica.

Numa projeção mais audaciosa, o engenheiro afirma que é possível usar os dejetos descartados nos esgotos como matéria-prima para obtenção do gás metano. ‘Não se faz tratamento de esgoto dessa forma porque ainda falta uma matriz econômica, empenho do governo e envolvimento da sociedade civil. Além de não poluir os rios, retira-se o gás e o subproduto pode ser usado como fertilizante’, defende.

Como fonte geradora de energia, 400 indústrias utilizam o biogás no Brasil, segundo a secretária executiva da Associação Brasileira de Biogás e de Biometano (Abiogás), Camila D’Aquino. Seis estão localizadas em Mato Grosso. ‘O biogás é uma realidade e acontece tanto no Brasil como nos países da Europa. O mercado pode se desenvolver e com alto índice de nacionalização e a preços extremamente competitivos’.

Na suinocultura, esse aproveitamento dos dejetos para conversão em biogás (metano e gás carbônico) e fertilizantes também tem sido adotado em algumas granjas mato-grossenses com o uso de biodigestores, comenta o presidente da Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat), Raulino Teixeira Machado.

O biogás obtido por meio dos biodigestores torna-se combustível para geração de energia. Contudo, é necessário ainda aprimorar o sistema e barateá-lo, avalia Machado. ‘O custo do biodigestor é alto, mas traz o benefício ambiental. Eu uso para produzir gás e aquecer a caldeira que armazena água para ser usada no frigorífico’. 

Há quase uma década, ele adotou o sistema que funcionava movido por um motor, que agora está sendo substituído por turbina. ‘Com o motor, o gás sai muito impuro. Pode ser que com a turbina seja mais viável, mas o custo continua alto’.

Para ele, faltam incentivos à implantação do sistema. O presidente da Acrismat lembra que os dejetos suínos não podem ser descartados no meio ambiente. ‘Quem não usa biodigestor pode fazer uma lagoa, deixa decantar para depois usar como adubo’. 

O uso de biodigestores foi defendido pelo professor da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquista Filho (Unesp), Jorge de Lucas Júnior, durante evento sobre bioenergia nessa semana, em Cuiabá. Ele considera o sistema mais um meio sustentável de produção. ‘A integração da lavoura com a pecuária tem apresentado excelentes resultados e é uma opção bastante interessante para investimentos’. 

Na avaliação do presidente do Sistema Famato/Senar, Rui Prado, como maior produtor de alimentos do país e por sua vocação agropecuária, Mato Grosso precisa ser mais competitivo. ‘Estamos sendo desafiados a produzir energia e temos condições favoráveis para isso’. De acordo com o coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Planejamento Energético da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Ivo Leandro Dorileo, Mato Grosso descarta 80 milhões de toneladas de resíduos agrícolas e pecuários que poderiam ser utilizados para geração de energia. O potencial mato-grossense de produção energética é variado, mas ainda pouco explorado, afirma.

CENÁRIO - Em 2015, o consumo mundial de energia fóssil -carvão, petróleo e gás -correspondeu a 78,3% da demanda por energia. Contudo, esse cenário está se modificando, diz o membro da Academia Internacional de Ciências e pesquisador da Embrapa Soja, Décio Gazzoni. Gás e petróleo estarão disponíveis por mais 50 anos, diz ele. O prazo para esgotamento das jazidas se estende em até 300 anos se considerados os potenciais de descoberta e a utilização de outras fontes. 

A mudança desse cenário é atribuída principalmente ao custo da energia renovável, que tem reduzido. Além disso, o surgimento de biocombustíveis como o butanol, biogasolina, diesel vegetal e bioquerosene, somados às inovações como as microalgas e as baterias de grande autonomia, acentuaram essa mudança. ‘Para criar novas fontes de energia é necessário tecnologia em escala comercial, comoditização, infraestrutura, custo compatível e preço competitivo, políticas públicas e medidas ambientalmente e socialmente corretas’, conclui.